quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Take (6): Ciranda da vida



A vida é uma eterna ciranda e estamos sempre brincando, fingindo, dissimulando, enganando e tudo mais que possa existir nessas pequenas e ofensivas palavras que nos rodeiam como parasitas nefandos.

A vida é um fingimento, poderia perfeitamente dizer o mais sincero dos poetas. E talvez eu realmente acredite nisso. Entretanto, há algo mais diabólico por trás dessa farsa, desse grande teatro que é a vida. Não sei definitivamente o que é. Só sei que é. E ponto.

Estamos o tempo todo (falo agora de nós, seres humanos, meros mortais, e não mais da vida em específico) tentando provar aos outros que somos pessoas que na verdade não somos. Que fazemos coisas que na verdade não fazemos. Que sentimos - solidariedade, afeto, não importa o nome – sensações que na verdade não sentimos. Somos máscaras, rótulos, estereótipos. E a verdade onde fica nisso tudo? E os nossos mais profundos sentimentos? Para onde vão? Esses, na maioria das vezes, ficam escondidos em gavetas empoeiradas, dividindo espaço com toneladas de papéis sem sentido, acumulados entre tristezas e insatisfações as mais diversas e cruéis.

Se eu queria voltar atrás? Entrar numa máquina do tempo que me permitisse reescrever a minha história? Lógico! Quem não gostaria? Acha que eu acredito nesse oba-oba mesquinho de algumas vezes que jogam na minha cara “não mudaria nada do meu passado”? Balela. Todo mundo mudaria. A prova disso é a enxurrada de modificações estéticas que se transformou a nossa sociedade, essa aldeia de mutilados, transformados, adaptados, que muda tudo que incomode. E, às vezes, esse incômodo surge e desaparece num prazo tão curto que nem dá tempo de cronometrar no relógio. Todo mundo quer mudar algo e quem não pode, gostaria.

Mudar tudo.

De casa, de emprego, de carro, de vida, de namorado(a), noivo(a), Marido(esposa), os gostos, as glórias, ufa! Chega... Eu poderia escrever uma lauda inteira dessas só com o que o ser humano desejaria mudar e ainda faltaria muita coisa.

É culpa da vida esse desejo de mudança?
É nossa culpa?
De quem é a culpa?
Culpa? Você está aí?


Enquanto procuro as respostas a ciranda continua rodando. Pois como dizia a belíssima voz do cantor Freddie Mercury, “The show must go on”.














sábado, 27 de dezembro de 2008

Take (5): Hiato


Os dias nublados são estranhos e profundos. Estranhos porque impressionam a gente com seus tons de cinza melancólicos, aprisionantes, torturadores, deprimentes (não dá vontade de olhar mais detidamente, incomoda aos olhos mais treinados e acostumados a perceber a beleza que nos rodeia). E profundos porque exista alguma coisa naquela mistura de cores derrotistas que parece arte abstrata, quase erótica, mexendo com nossa libido mais interior. Naquele dia em questão o dia estava nublado e eu, sentado na areia da praia, pensava na minha vida. Aliás, tenho feito muito isso nos últimos dias: pensado. O final de ano faz isso comigo. Fico meio cabreiro com essa coisa de natal e ano novo e toda essa hipocrisia ambulante que reina em nossa sociedade e aquela velha demagogia chamada “Boas festas pra você”. Brincadeira! Um ano inteiro de pessoas se engolindo a torto e a direito, de pessoas se massacrando em guerras santas (se é que dá pra entender um conceito desses), de empresários inescrupulosos que transformaram o feriado num comércio abusivo e desleal, para no último dia do ano aquela frase, dita de maneira tão angelical, plácida que você quase acredita.

Distraio-me com a bela morena que passa em seu indefectível biquíni lilás, poderosa, pernas delgadas, umbigo ornado com um piercing hipnotizador. Ela pisca para mim. Foi isso mesmo que eu vi? Assobio dali mesmo e ela sorri, exibindo em toda a sua formosura as nádegas perfeitas, redondas. Um vendedor de cerveja ali perto grita:

“Aí, hein? Ganhou o dia”.

Aquela mulher me faz lembrar de Marisa e nosso relacionamento conturbado. Durou até bastante tempo: 4 anos, 8 meses e 27 dias. Isso mesmo! Sei ser preciso quando quero. Nós nos conhecemos, curiosamente, numa praia lá pros lados de Arraial do Cabo. Eu já era um homem experiente, havia conhecido outras mulheres antes dela, no entanto, alguma coisa em seu sorriso largo me comovera. Eu paguei a ela um Mate (ela adorava mate!) e, logo, conversávamos sobre cinema, televisão, teatro, seus assuntos preferidos. Como não queríamos perder tempo com sentimentalismos bobocas, fomos direto pro motel. Nossos corpos se fundiram como dois imãs. Nunca tivera uma sensação tão magnética quanto aquela. Pena qye aquele momento mágico durou o tempo da diária do motel.

Pois logo vieram as discussões,

As trocas de ofensas mútuas (muitas vezes envolvendo nossas famílias de forma desnecessária),

E então os tapas (um erro lamentável do qual me arrependo até hoje!),

Virou caso de polícia,

Fiquei detido duas vezes,

A irmã de Marisa fez de tudo para nos separar definitivamente (até contratar um investigador particular para que ele me fotografasse com outra mulher, ela contratou).

A separação foi inevitável.

Chegamos a nos esbarrar numa exposição sobre arte barroca numa galeria no Flamengo. Ela acompanhada de um jovem que tinha metade da sua idade. Depois fiquei sabendo por amigos que o tal rapaz era sócio num dos mais importantes escritórios de advocacia da cidade. Raul o nome dele. Nunca mais a vi.

Tocam meu ombro. Uma muralha de 1.90m de altura trajando uma sunga branca.

“Chefia, se incomoda se nós jogarmos um futevôlei ali?”, perguntou apontando para um grupo de pouco mais de dez pessoas que aguardavam a uns cem metros dali.

“Por favor, fiquem à vontade. Na verdade eu já estou de saída”. Levantei-me, apertei sua mão e fui caminhando em direção a orla.

Olho para o relógio. São onze e quarenta e cinco. “Tenho de me apressar se não perco o almoço na casa da Rejane”. Rejane era uma colega de trabalho a quem eu vinha encontrando nos últimos meses com certa frequência. Não era tão encantadora quanto Marisa, mas era divertida, sabia me entreter quando eu mais precisava. Era a mulher ideal para alguém como eu, que precisava recomeçar o quanto antes.

Só um recomeço pode afastar pra bem longe o hiato em que se transformou a minha vida.










domingo, 30 de novembro de 2008

Take (4): Mulheres



Eu venero as mulheres. Não é brincadeira, não. Venero Mesmo! Acredito que foi, definitivamente, a melhor criação de Deus. Os meus amigos, que não gostam quando falo isso assim, escancaradamente, dizem que a mulher só foi inventada para trazer complexidade ao mundo. Discordo. Bárbaros! Quem são eles para denegrir essa criação divinal? Como podem? Não vêem o quanto estão loucos? Como nasceríamos? Hein? Respondam, infelizes.

Desculpem...Estou fugindo do assunto. Como dizia no início do relato: eu as venero. Foi a praia, sento num dos muitos bancos dos quiosques para apreciar a paisagem e, não demora muito, começa o desfile. Elas passam...Voluptuosas...Atraentes...Sedutoras. Uau! Que demais! Seus umbigos perfeitos, microssaias exuberantes, os piercings hipnotizantes (olha aquela, com a âncora!), balançando com o movimento arrojado dos corpos morenos, em fios dentais curtíssimos, cangas coloridas em cima dos ombros, ao redor da cintura, Meu Deus...Como podem ser tão belas? Saio da praia e cruzo com uns amigos que tomam um choppinho rápido e contam as últimas (as últimas significam meter o malho em alguém). Só que eu, distraído, acompanho com os olhos uma morena cor de jambo, biquíni amarelo, curvas aerodinâmicas, ouço meu nome:

“Ô Carlinhos, acorda, tá viajando?”.

Viajando? Vai nessa! Despeço-me antes mesmo de se oferecerem pra pagar uma tulipa e sigo meu caminho. Não posso esquecer de comprar pão e leite.

Na padaria seu Adamastor me chama num canto e fala:

“Sabe aquela moça do aparelho nos dentes? Aquele de rosto indígena?”.

Ah! Angélica. A minha preferida entre as musas. A maior de todas. Certa vez a acompanhei até o prédio onde morava, só pra saber onde residia aquela deusa.

“Sei. O que tem?”.

“Fez uma tatuagem no ombro esquerdo. Uma borboleta”.

Loucura! Loucura! Loucura! Tatuagem, não. Aí eu morro do coração.

Ele ainda fala mais umas duas ou três palavras que eu praticamente não ouço, pois tento imaginar Angélica com a tatuagem no ombro. “Preciso ver isso o quanto antes”, sussurro entre dentes. Pego a bisnaga, o litro de leite, atravesso a rua, gesto na portaria, portão elétrico destravado, elevador, aperto o 5º andar, sobe o primeiro, o segundo, no terceiro a porta é aberta e uma menina de 16 anos pergunta:

“Sobe ou desce?”.

É a filha do Alceu, advogado do 304. Outra beldade. Só que essa precoce. Uma verdadeira Lolita. Saia minúscula, sacolinha a tiracolo de onde dá pra ver o protetor solar e os óculos escuros.

“Sobe”.

“Desculpa”.

E solta a porta.

5º andar, apartamento 502, giro a chave, uma, duas, três vezes, droga de fechadura que trava toda hora, preciso chamar o chaveiro. Entro. Ana Rita ainda não se levantou. Deixo o pão e o leite na cozinha, tiro a roupa, vou pro quarto, ela, nua ainda, de bruços na cama, volta-se para mim, sorrindo. Me chama com um gesto do indicador. Retira o lençol de cima do corpo enxuto, malhado (“Nada mal para uma mulher de 35 anos”, penso comigo) e sua exuberância corporal me tira do sério.

Pulo na cama como um jato.

Não adianta os detratores me acusarem: eu venero as mulheres.










segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Take (3): Reação em Cadeia



Por mais que eu tentasse, não consegui. O carro saiu da estrada. O trecho nem era tão violento assim, nem sinuoso, nem nada disso. Eu que errei mesmo. Pura estupidez minha! Não entendo o que deu errado. Eu fiz toda a vistoria certo. Mudei o carburador, conforme o agente do Detran que avaliou o veículo pediu. Tudo certo. Aprovado em gênero, número e grau. E, na hora H, isso. Como pode? Será que a minha maré de azar anda tão ruim que não consigo mais nem dirigir o meu próprio carro? Ou será que foi a piadinha daquele motorista do caminhão prateado que me tirou do sério e eu acabei fazendo besteira, entrando na curva errada e derrapado? Preciso aprender a controlar esse meu gênio difícil! Qualquer dia desses a tragédia pode ser bem maior. O pior é que não é somente numa simples viagem de férias, sozinho, longe de esposa, filhos, amante, que tudo tem dado errado, não. Minha vida entrou num turbilhão caótico nos últimos meses que nem dá pra explicar ao certo como tudo começou.

Eu estava bem, tranqüilo, na minha, quando a tempestade atravessou o meu caminho. Tinha o emprego certo, a mulher certa, a rotina certa (se é que dá pra se ter uma rotina certa!), tudo ia às mil maravilhas. E não é papo de demagogo que quer aparecer bem na fita, não. Ia às mil maravilhas, mesmo. De repente, senti como que uma brisa na nuca. Era um sábado e eu estava no bar com uns amigos após uma pelada que acabara empatada num campinho de várzea a duas quadras dali. Nós discutíamos o resultado: a bola na trave que não quis entrar de jeito nenhum, o ladrão de Edson (Edson era o nosso colega que fez o papel de árbitro no jogo) que cismava de dar reversão pra todo mundo que cobrava o lateral errado. Como era chato aquilo! A galera sempre apostava. Quem perdia, pagava a gelada. Naquele dia, entretanto, ninguém perdeu. Logo, ninguém queria pagar nada. E veio o tal vento na nuca.

Senti-me estranho por alguns segundos, meio zonzo, grogue, mas deixei rolar. Devia ser cansaço do jogo disputado. Quando voltei pra casa minha esposa discutia com a vizinha da casa em frente. O tema: traição. A infeliz (desculpe o termo rude: a Iolanda, nossa vizinha) descobriu que eu vinha me encontrando com a Dalila, minha amante, num motel perto da escola onde seu filho estudava. E decidiu fazer a minha caveira junto a minha mulher. Daquele momento em diante, tudo passou a dar errado. Antonela me pôs para fora de casa, perdi o direito de visitar a nossa própria filha (de seis meses apenas), me mudaram de setor na empresa, colocando como meu superior um chato de galocha chamado Aílton, típico carreirista de corporação que queima o filme de qualquer um por uma posição destacada na empresa. Acha que acabou por aí? Nada. Minha tia Amélia, a mulher que me criou após o falecimento de meus pais, morreu de um infarto fulminante. Ufa! Que semana.

Como nem tudo de ruim que um ser humano pode sofrer acaba em apenas uma semana, quando ela se transformou em duas e depois virou um mês e dois e três e...Ih! Ô inferno astral, karma, ou seja, lá o nome que isso tenha, sem fim. Perdi o emprego, virei autônomo, vendendo apólices de seguro para casais de aposentados do funcionalismo público. Minha amante, burra como uma porta, mas dono de seios inesquecíveis trocou-me por um marinheiro brutamontes que ela dizia ter “o maior... da história de toda a marinha”. Fazer o quê! Bem dizia meu antigo colega de setor (Jaílton? Jair? Como era mesmo o nome dele? Ah! Sei lá... só sei que era gente boa): quer saber quando a vida de um homem vai realmente mal? É quando até a amante o abandona por outro. Por dois meses fiquei desolado, parecia cão sem dono, sabe? Vagando sem destino (e empurrando apólices pros coitados dos aposentados, é claro, senão atrasava o aluguel e as contas).

Passada a fase negra da melancolia, decidi meter o pé na estrada. Fazer como o personagem de um filme que assisti e não me recordo do título agora. Só sei que ele cansava de tudo. Da vida, dos pais, da faculdade, fazia uma mochila rapidamente com umas poucas mudas de roupas, pegava a grana que tinha no banco, comprava uma garrafa de vodca num desses muitos bares à beira da estrada (devia ser uma route 66 dessas) e sumia do mapa, sem destino nem porto seguro que o atrapalhasse. Como sou um poético por natureza – apesar de não merecer dos outros outra alcunha senão a de cafajeste – e amante da sétima arte, decidi repetir a façanha do jovem ator (não devia ter mais de 20 Anos). Consegui passar incólume por exatos 15 km. E agora, quando eu já podia sentir ao longe o cheiro acre da liberdade em meus poros, pois era tudo que eu precisava naquele momento, o carro saía da estrada.

Ô senhor dá um refresco. Só um pouquinho.
Só dessa vez. To quase chegando lá.

O dia foi-se e com ele a claridade da rodovia. E eu ali, sentado no capô do carro aguardando. O motorista do caminhão com quem eu cruzara no km cinco ainda não passara por ali. Aliás, ninguém passara por ali até então. Só o bocó aqui. Cujo carro tinha que sair da estrada.

Mas vai passar...
É só ter fé que vai passar.
É questão de paciência.


terça-feira, 18 de novembro de 2008

Plano-sequência: Domingo de orgulho



Milhares de pessoas infestaram a Avenida Vieira Souto automaticamente, como ratos fugindo de seus esgotos fétidos. O formigueiro humano era visível a metros de distância. Para aqueles que moravam nas coberturas de seus prédios, a sensação que se tinha era a de um enorme enxame vivo, pulsante, desafiador. E no meio de toda essa multidão – as mais diversas tribos, de mãos dadas, suplicando, sôfregas, por uma solução – esse intrépido estudante de jornalismo, portando uma pequena máquina fotográfica (que, à primeira vista, seria utilizada para bater uma foto da imensa roda gigante que nos últimos dias vinha abrilhantando o Forte de Copacabana) e um desejo de captar esse inconformismo de forma direta, sem rodeios ou máscaras.

Ao meu lado, uma jovem senhora – setenta anos de pura energia e caminhadas ao ar livre – gritava a plenos pulmões: “Essa pouca vergonha tem de acabar!”, palavras poderosas e cheias de raiva que repercutiam nos ouvidos daqueles que a acompanhavam também insatisfeitos com todo aquele caos que vinha se alastrando de forma gradual pela Cidade Maravilhosa nos últimos anos, sem que ninguém tomasse uma providência. Seja por falta de interesse ou por um comodismo disfarçado de excesso de trabalho burocrático. O flash de minha câmara não parava de espocar, focando cartazes que suplicavam por vergonha na cara, paz, justiça, fim à corrupção, entre outras reprimendas mais ofensivas. Alguns me olhavam com receio, entre eles um grupo de jovens orgulhosos de seus piercings e tatuagens por todo o corpo, acreditando estar diante de algum servidor público conservador ou mesmo um fotógrafo paparazzi ansioso à espera de um flagrante que pudesse diminuí-los frente à mídia. Como se eu merecesse tamanha atenção!

A caminhada começou cedo. Os da geração mais antiga – os dinossauros da passeata - relembraram saudosos dos tempos da ditadura e, principalmente, da passeata dos cem mil, da qual certamente, muitos participaram. Já os mais jovens reviveram os dias de cara-pintada em frente à Assembléia Legislativa, na Cinelândia, pleiteando o impeachment de Fernando Collor de Mello. “Bons tempos aqueles!”, pensei comigo mesmo. Misturados, confundidos entre camisas que estampavam protestos, pedidos, lamúrias de um povo cansado de sofrer, eram uma só voz que começava rouca, é bem verdade, mas que com o acelerar dos passos ganhava brio, tornava-se mais e mais destemida. “Juntos podemos”, pensei em gritar, mas constrangido, com medo de estar fazendo papel de bobo, calei-me. E por quê? Não eram ali todos bobos, pelo menos na opinião do atual Prefeito da cidade, que achava tudo aquilo uma grande sandice? Não disse ele que no final das contas a própria sociedade é quem perdia, pois teria de pagar mais caro o talão? Sim, meus caros, o grande vilão de toda essa parafernália era um talão. O símbolo a ser amaldiçoado não se tratava de uma suástica ou mesmo a bandeira de uma nação estrangeira. Nada disso. O inimigo resumia-se a quatro letras: IPTU.

Há muitos anos não via uma mobilização daquele porte e, talvez por isso, minha câmara tenha ficado tão alegre e tenha trabalhado tanto. A vontade de desafiar o sistema nos olhos e na atitude dos moradores. E não se restringia aos moradores do bairro, não, tinha gente de tudo quanto é lugar: zona norte, zona sul, baixada, São Gonçalo, todos afetados pelo mesmo problema (No caso, a falta de respeito ao dinheiro público e o abandono da cidade, jogada às traças de forma desrespeitosa). Fiquei orgulhoso de ser brasileiro, de ser cidadão, de estar em meio aquela massa furiosa de revolucionários que, ao invés de esperar ansiosamente os apitos e batuques do carnaval já próximo, vestiu a camisa, estampou a revolta na cara e foi brigar pelo que lhe é de direito: o reconhecimento por seu esforço. Não só o de pagar seus impostos em dia, mas, acima de tudo, de não ser respeitado apesar de respeitar o próximo.

Não foi um domingo de sol, de loiras geladas, de biquínis minúsculos exibindo coxas esplêndidas enquanto surfistas desafiavam o mar de forma destemida, um último arroubo de liberdade juvenil. Realmente não foi. Até por que o dia cismou em exibir um céu cinzento, depressivo, angustiante, daqueles que normalmente nos fariam ficar em casa, entediados, na frente da televisão vendo alguma baboseira. No entanto, foi um dia bonito de se ver e de contar pros amigos, espalhar aos quatro ventos o quanto o cidadão brasileiro ainda consegue acreditar em si mesmo.

Bravo!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Take (2): Meu amigo oráculo



Quando criança, em meio à galera que brincava de pique-esconde ao redor da praça e pelas ruas adjacentes, todos os outros meninos queriam ser o líder. Todos sonhavam com a liderança. Ser líder era ótimo, pois ninguém iria contestar a sua palavra final. Você era o líder, poxa! De quem se esperavam as atitudes mais heróicas. Quem iria contestar isso? Mas eu não! Eu queria ser o oráculo. Tudo por causa de um livro que li escondido de meus pais em que uma máquina sempre era procurada para responder às questões que nenhum ser humano seria capaz de responder. Essa máquina se chamava oráculo. Era isso que eu queria ser. Eu quero! Que quero! Eu quero! Batia na mesa na hora do almoço, brigava com meus pais, meus irmãs, com a empregada, com o filho do vizinho, discutia até com o papagaio (naquela época eu acreditava que papagaios sabiam falar, manter um diálogo. Que tolice!). Na escola os outros alunos me sacaneavam: “Olha lá o oráculo chegando”. Eu, que não levava desaforo pra casa, saía no braço e tome tabefe, sopapo, pancada, olho roxo, e “você vai ver. Vou falar com meu pai e ele te pega”. Batia mesmo! Quem eram eles pra debochar da figura ilustre do oráculo.

Um professor de história contou sobre o Deus Ex Machina uma vez, muito rapidamente, no intervalo entre uma aula e outra e eu fiquei entusiasmado. “Será que essa é a identidade secreta do oráculo?”, me perguntei. Começou a virar uma obsessão durante as noites em que eu tinha pesadelos e, no dia seguinte, dizia pros meus pais: “Deixaram a porta aberta?”. Eles me olhavam intrigados sem saber o que dizer e eu, decepcionado, chorava. “Poxa, o oráculo me pediu pra deixar a porta aberta pra ele entrar em casa de madrugada!”. Preocupada, minha mãe me levou a um psicólogo que me encheu de perguntas:


“Curte gibis de super-heróis?”.
“Que tipo de programa televisivo você mais gosta?”.
“Tem amigos?”.
“Hobbies?”.
“Com o que você sonha à noite, exatamente?”.


500 perguntas depois eu, exausto, pedia ao médico água, ir ao banheiro, qualquer coisa que me tirasse dali, daquele consultório. Desenvolvi uma espécie de teoria da conspiração. Acreditava que aquele psicólogo havia sido contratado para me hipnotizar ou alguma coisa do tipo, tudo para me fazer esquecer do meu amigo oráculo. Perda de tempo! Ninguém conseguiria tal façanha. Anos se passaram, a juventude, as garotas, sexo na praia, baladas, bebidas energéticas, gummy, raves, micaretras, academia (e tome flexão, esteira, spinning, pra ficar com a barriga tanque e os músculos rijos) e nada de esquecer do oráculo. Ele sempre era mencionado nas rodas de bate-papo. Os colegas reclamavam:


“Quando é que você vai crescer, cara?”.


Meus pais se divorciaram, veio a faculdade, me formei em veterinária (adoro bichos!), conheci a Angelina, uma menina da rua de baixo que adorava gatos de todas as raças e tudo mais que tivesse relação aos felinos. Eu lembro de ter corrido atrás de todas as bibliotecas atrás dos livros da Patricia Highsmith, uma amante notória dos bichanos. Ela ficava doida quando via os livros! Nós quase casamos. Eu acabei perdendo a parada para um mauricinho que fazia curso de inglês junto com ela. Ah! Deixa pra lá. Pelo menos, ainda tenho o oráculo.

Até que aquela quinta-feira chegou. Eu cheguei do trabalho cansado, tomei um banho demorado, pus meu pijama, sentei na sala e liguei a TV. O noticiário começava. Começa o Rio Fashion Week. Desbaratado cativeiro de jovens que seriam vendidas como escravas sexuais em Madri. Botafogo empata em 2X2 com o Goiás e se complica no Campeonato Brasileiro. Notícia chata. Notícia boa. Madonna confirma vinda ao Brasil. Comerciais. Começa o segundo bloco, âncora muda de tom, voz apreensiva: “E há poucos instantes a Boate Oráculo foi destruída pelas em decorrência de uma pane elétrica. Não se sabe ao certo quantas pessoas ficaram feridas e se houve mortes. O delegado Edevair Pimenta não descarta a hipótese de incêndio criminoso”. Boate o quê? Não! Não pode ser... Nãaaaao!!!!!!!!!! De jeito nenhum. Não pode ser. É algum engano, com certeza. Não pode. Não pode. Não pode. Não desse jeito. Não! Tapo os ouvidos, desligo a tv, cama, corpo rola, rola, rola, não pode ser. Não desse jeito.

Nunca mais saio desse quarto.
Nunca mais saio desse quarto.
Nunca mais saio desse quarto.
Nunca mais saio desse quarto.
Nunca mais saio desse...







sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Take (1): Viagem Infernal



Duas pessoas entram, quatro saem. Cinco saem, mais duas entram, saem seis entram três e mais duas e mais uma e entram nove e saem cinco e barulho de roleta e trocador grita e motorista se exalta e passageiro desiste da viagem, pois o veículo está cheio e saem mais dois e entram mais oito e saem seis e noves fora e o fiscal com a pranchetinha (a maldita prancheta!), bate com a caneta na madeira e faz cera e o povo se irrita “fala sério! Vou chegar atrasado, piloto!” e saem mais... Deus! Viagem de ônibus é pior do que a via crúcis. Todo dia a mesma coisa, a mesma lengalenga irritante, depressiva, repetitiva, agonizante, inquietante, narcotizante e mais todos os antes possíveis e imagináveis. Berro de criança me desconcerta, bato a cabeça levemente de encontro a janela semi-aberta e olho para o livro em meu colo, página 38, parágrafo terceiro: “Há certas momentos na vida em que só sobra a espera”. Droga! Até o livro está contra mim.


Momento de alívio: entra a normalista. Isso mesmo. A normalista. Baixinha, morena, deve ter pouco mais de um metro e meio, linda, lábios carnudos, cinturinha fina, pernas impecáveis, camisa branca de linho, bolso do colégio Heitor Lyra, tatuagem de borboleta na perna direita, safada! A saia curtíssima enlouquece os torcedores do botafogo de pé na frente do ônibus. Bate um arzinho, por favor! Só um... Fu... Fu... Fu... Nada. Nem uma brisa. Ajuda, meu senhor do Bonfim. Só hoje. Esse humilde escravo está pedindo. Melhor: suplicando. Ônibus abarrotado, ninguém cede o lugar à bela musa dos olhos castanhos claros. Do meu lado uma senhora de seus mais de 70 anos baba compulsivamente enquanto dorme. Criatura malévola! Tanto lugar pra sentar.


Som de louvor. Ah, não! De novo, não. Lá vem ele. O homem das oito horas (apelido gentilmente criado por Aírton, um boa praça que conheci nessa mesma linha, mas que não tenho visto nos últimos dias, pois está de férias do trabalho. É servidor público). Ele chega com o seu Ipod ligado na pregação dos pastores. Só que é tão safado que não curte a sua religião sozinho, com o fone de ouvido, particular. Não. Ele quer que todo mundo ouça e coloca o som bem alto. É desagradável. A senhora ao meu lado acorda sobressaltada: “É o homem das oito horas?”. Todo mundo conhece. Já virou uma espécie de celebridade na linha de ônibus. No fundo do carro uma galera começa a tamborilar na janela cantando créu, créu, créu e outros nomes que eu tenho até vergonha (ou medo) de pronunciar. Sabe lá se tem criança ouvindo?


Daqui a dois pontos é a vez do meu e eu ainda sentado. Levanta, homem! Não vê que vai se atrasar, que o motorista é apressado e não espera por ninguém a não ser quem está ali próximo da porta. Levanta. Agora. Esbarro na velha babona, ela chia, a saia normalista sobe levemente e eu quase perco. Os torcedores do fogão berram “Uhuuu... que morena é essa?” e passo raspando entre mochilas, bolsas, um mulher cheia de sacos de supermercados que me xinga “Vê por onde, ô!”. Eu xingo de volta, um advogado pensa que é com ele e avança em minha direção, chega a turma do deixa disso. Ufa! A porta de saída. Puxo a corda do sinal. Quebrada. Berro. Ô piloto. O próximo aí. Salto. Graças a deus. Agora só daqui a 10 horas. Dá tempo de respirar até lá e tomar uns cinco cafezinhos entre um turno e outro.


domingo, 26 de outubro de 2008

Preparando a Câmera: ínício da saga



Tudo está uma bagunça: minha vida, meu ir-e-vir, meu campo dos relacionamentos (se bem que nesse caso sempre foi uma bagunça!). Tudo. Definitivamente, tudo. E o pior é que nem eu mesmo, o maior responsável e a maior vítima de 99,9% de todos esses problemas, consigo resolver a centésima parte deles. Estou aprisionado a uma vida sem rumo. Eu sou aquele rebelde no meio da estrada, fazendo sinal com a mão em busca de carona. Eu sou aquele a quem todos acham inteligentíssimo, mas, no entanto, só se utilizam dessa inteligência para montar nas costas, seja reivindicando uma ajuda relâmpago, seja usurpando minhas idéias (ou, se preferir, meus lapsos de genialidade). Meu Deus, o que é que eu estou fazendo da minha vida? Responda-me, por favor, eu suplico.

Eu decidi cair na estrada assim, da noite pro dia. Não foi algo planejado. Nada disso! Eu cansei de tudo. Casa, família, faculdade, tudo. Só queria meter o pé na estrada, sentir o vento correndo pelo rosto, vrum, vrum, vrum, macio, refrescante, trazendo-me bons pensamentos, imagens psicodélicas (não, eu não sou nenhum viciado em drogas, mas tenho minhas visões também. E desde já eu adianto que tenho todo o direito a tê-las). No dia da primeira fuga – que não se concretizou porque a chuva desabou do céu, parecendo reclamar da minha decisão – eu já estava com a mochila pronta embaixo da cama, esperando, sussurrando, “Vamos! O momento é esse. A liberdade o aguarda. Está logo ali. Não está vendo?”. E eu desisti. Por causa da chuva. E como choveu! Foram 48 horas de água depois de água. Só voltei a tomar coragem no fim da outra semana. Já tinha desfeito a bagagem, portanto tive de refazer às pressas. Mas sabe de uma coisa? Foi melhor assim, de supetão. Deu mais coragem de fazer a jornada. Não sei explicar bem o porquê. Só sei que deu.

Algumas coisas não podiam faltar na minha mochila: os meus CDs favoritos (de Santana a Isaac Hayes... E eu pretendia comprar alguns novos pelo caminho), enxaguador bucal, um exemplar do livro On the Road, de Jack Kerouac, verdadeiro inspirador dessa minha decisão maluca de cair no mundo, minha jaqueta da Planet Hollywood, a primeira coisa que eu comprei com o dinheiro do meu próprio salário. Já sei! Como eu trabalhei, devo ser alguém mais velho, mais maduro. Não sei porquê essa mania de quererem saber a idade de todo personagem. Pois bem: eu tenho 30 anos. Se foram bem ou mal vividos aí já é outro departamento. Quem sabe eu responda ao longo da história, à medida que as idéias forem clareando aos poucos.

Por enquanto, acho que já basta. Muita coisa vai pintar nesse malfadado relato. “Muita água há de correr por essa ponte”, como diria minha falecida avó materna. Histórias minhas, inventadas, de outros (que eu simplesmente observei e repasso agora nessas humildes linhas) e, principalmente, as metamorfoseadas, ou seja, aquelas que não tive ou não terei coragem de contar na íntegra, seja por medo de revelar as identidades de seus perpetradores, seja por preconceito – afinal, vivemos numa sociedade estereotipada demais, não se esqueçam! -, seja por preguiça de dar todos os detalhes, preferindo, com isso, habitar na superficialidade dos fatos.

Aguardem.
Muita coisa (boa e má) vem por aí.
Que venham os takes.
Que venha esse mundo caótico.